Alpes “cerise sur le gâteau”

Poder visitar partes do maciço Alpino, seja o Francês, o Italiano ou o Suíço, reservando estes os topos mais míticos, é um sonho para qualquer amante de ciclismo. Parece por vezes inatingível a qualquer Europeu do Sul chegar até estas bandas, mas não… é relativamente fácil!

Em Junho de 2015, os 4 aventureiros que viajavam vindos de terras pirenaicas, de regresso a Portugal após ter efectuado a travessia dos Pirenéus do Cantábrico ao Atlântico em 8 dias (ver história aqui), naqueles mais de 1000 km de viagem numa caravana, ainda com as pernas a latejar das marretadas que levaram, já nascia e falava-se sobre a vontade de elevar a fasquia e de se subir mais a norte (Alpes) ficando apalavrada mais essa aventura épica.

Uns meses depois, e após algumas conversas pré-preparativos…. em meados de Novembro de 2015, recebo (Daniel) uma chamada do Edgar a perguntar se quero ir dar uma voltinha até à região de Sabóia, região esta atravessada por parte do maciço Alpino. Seria por alturas de Julho seguinte. Obviamente que respondi que sim, após saber que a cerveja, café e bolaria fariam parte da brincadeira.

E então começaram os planos…

Desta feita a turma que seguiu para esta aventura foi um pouco maior em relação à que se aventurou em solos pirenaicos no ano anterior. No total a equipa atingiu o número de 8 elementos o que fez com que os aspectos logísticos fossem um pouco mais complexos e com pormenores diferentes e porque também esta aventura se desenrolaria num formato diferente. Não seria em travessia, mas sim todos os 4 dias (etapas) regressaríamos sempre ao mesmo local.

1ª Questão a decidir: Local

Saint-Jean-de-Maurienne seria o nosso Quartel General para os 4 dias de euforia ciclística. Classificada como a capital mundial dos Cyclo Grimpeurs (ciclo trepadores). Perfeitamente situada num vale central, perto dos principais col’s que queríamos atravessar. O Camping des grand Col foi o escolhido para as pernoitas dos aventureiros.

2ª questão: Data

Foi aqui nesta escolha que colocamos a “cerise sur le gâteau”… pumba, decidimos enquadrar a coisa com a altura em que o Tour passava ali perto, possibilitando desta forma num dos dias podermos assistir à partida e a uma passagem num outro local.

As próximas questões prenderam-se com os detalhes logísticos que resumidamente foram:

Bicicletas?

R: Alugadas e entregues no dia da primeira etapa no Parque de Campismo.

Como chegar a Saint-Jean-de-Maurienne da forma mais barata e rápida possível?

R: Voo low cost até Lion e daí um táxi (monovolume) para 7 dos 8 aventureiros.

Entretanto surgiram algumas questões que se prenderam com o  material que teríamos de levar, como tal uma tnda para 4, sacos de cama etc etc… Como o nosso amigo Mesquita iria de caravana, na já conhecida Mirage, uns dias antes para SJdM vindo da Bélgica, local onde reside, enviamos para a sua residência esses bens, que o mesmo transportou depois na caravana. E como no final da aventura ele regressaria a Portugal de caravana, tudo ok e questão resolvida.

A partir daqui a espera foi igual a de uma criança que espera ansiosamente pelo natal…

Com tudo tratado foi apenas começar os treinos de preparação, alguns deles em conjunto com uma subida a Fóia, Serra de Monchique. Entretanto, muitas subidinhas na Serra da Arrábida, Serra da Estrela etc etc…

E eis que então chega o dia…

Dia 0 – 19/7/2016 – Viagem 

 

Na hora marcada lá estávamos nós no aeroporto prontos para toda a logística inerente a uma viagem de avião… mas não começou como esperávamos. O voo atrasou 2h e lá tivemos de avisar o motorista que nos iria fazer o transfer de Lion para Saint Jean de Maurienne e acertar uma nova hora.

Depois da espera, lá viajamos sem sobressaltos durante 2 horas até Lion, onde à saída do aeroporto lá estava o motorista identificado por uma tabuleta com um dos nossos nomes e que nos levou até ao nosso destino onde já aguardava o nosso companheiro Mesquita que já tinha o acampamento montado e a massa pronta! Espétaculo!

Quartel General Alpes 2016

Dia 1 – 20/7/2016 – Col du Télégraphe e Col du Galibier (Tocar no teto dos Alpes)

Por volta das 9h e já depois de tomarmos um bom pequeno almoço, com pão fresco, papas de aveia café e muitos Speculoos, chegaram as bicicletas que alugamos e depois de uns pequenos ajustes lá nos fizemos a estrada, ainda antes das 10h, para atacar o Col du Télégraphe e de seguida o Col du Galibier, numa tirada num total de 100km com cerca de 2500 metros de subida acumulada. 

Saímos do parque e fomos em direcção a Saint Michel de Maurienne, onde começaria a subida de 11,18km com pendente média de 7% que nos levaria ao Col du Télégraphe, a 1566 metros de altitude. Subida relativamente rápida da qual tivemos em parte a companhia de uma btt eléctrica que a dada altura desapareceu por dentro dos trilhos que desaguavam na estrada.

Estava tudo extasiado com a subida, com a paisagem deslumbrante dos Alpes no verão e com as marcas na estrada que nos relembram que o Tour passa por ali. Sim, parecia um sonho, estávamos a fazer subidas icónicas do Tour e que normalmente só vemos na TV.

Chegados lá a cima é altura de tirar a foto da praxe e descer em direção a Valloire, para comer algo e de seguida enfrentar os 17,60km com 7% de inclinação média, que nos levariam dos 1400 aos 2642 metros de altitude. 

A paisagem do Galibier é contrastante, com o verde dos vales e a neve nos picos mais altos, indescritível a beleza deste Gigante Alpino, só visto. Até aqui teria sido o topo mais alto que havíamos tocado.

É incrível o poder e energia que os Alpes nos transmitem.

Depois foi sempre a descer até ao parque de campismo pelo mesmo caminho, parando de novo em Valloire para abastecimento. 

Chegados ao parque de campismo foi lambusarmo-nos nos típicos lanches de final de volta com cerveja de abadia à mistura. O melhor recuperador.

Depois foi distribuir tarefas e ir às compras. Esta parte aos dois a quem tocou a parte de ir às compras foi um pouco complicada. Querer ser um Sagan e  querer ir às compras de bicicleta carregados com 2 sacos cheios de compras cada um, não foi a melhor das opções porque deu queda, compras espalhadas no chão, que figurinhas tristes… mas felizes porque estavam na meca dos Col’s…

Dia 2 – 21/7/2016 – Col du Glandon, Alpe D’Huez e Col de la Croix de Fer- L’étape Reine

E a etapa rainha desta aventura chegou. 

Para este dia tínhamos reservados 165km com 5000 metros de acumulado, no menu tínhamos o lindíssimo Col du Glandon, o épico e famoso Alpe D’Huez e o temível Col de la Croix de Fer.

Acordamos cedo e fizemos-nos a estrada. Ainda nem tínhamos percorrido 20km e já estávamos a subir o magnífico Col du Glandon, uma das subidas mais bonitas por nós feitas, numa manhã cinzenta mas amena, parecia dar mais romancismo a esta subida que a chegar ao topo soltou algumas pingas de chuva mas nada de mais. 19,52 km de subida de pura beleza em estado natural que nos fizeram distrair da dureza da subida que nos levou aos 1924 metros de altura. 

Feito o Glandon era altura de descer cerca de 30km, pelo Col de Croix de Fer, descida esta que no final do dia seria subida, passando na bela barragem de Verney e parando em Le Bourg d’Oisans para almoçar e reabastecer de água.

Feito o abastecimento era tempo de nos dirigirmos para as 21 curvas que dão formato àquele zigue zague do famoso Alpe D’Huez.

Cada curva tem história, cada curva respira ciclismo e cada curva homenageia os ciclistas que as subiram mais rápido nas edições em que o Tour por lá passou, como o nosso José Agostinho, homenageado na curva 17 e com placa na curva 14 devido à sua vitória na etapa do tour de 1979. 

A sensação de fazer as 21 curvas e acabar na estância de Huez é incrível, ali respira-se e sente-se ciclismo, havendo sempre gente que aplaude quem chega de bicicleta,  dando sempre alento e fazendo-nos imaginar uma chegada do Tour.

Alpe D’Huez feito e era tempo de recuperar para descer em direcção ao temível Croix de Fer.

No Croix de Fer esperava-nos 24km de subida, com umas pequenas descidas pelo meio, que nos levariam aos 2067 metros de altitude. Mas que rampas e que agressividade tem esta subida nos seus 2 primeiros terços.

A meio, lá paramos num cafezito e para nosso espanto, gelados corneto a 1 euro??? Uiii siga, vamos lá acbar com isso… por estas bandas, luxos destes a estes preços não se encontram todos os dias …

Depois dos gelados lá nos fizemos de novo a subida até que o topo foi atingido e a partir daí uma frenética descida de cerca de 30km levava-nos quase directamente até ao parque. 

Contas feitas passamos 9h a pedalar e o que mais queríamos era comer e dormir. Mas que dia… nesse dia ninguém cozinhou…Sai pizzas para toda a gente.

Dia 3 – 22/7/2016 – Ver o Tour 

O dia amanheceu chuvoso, é assim a meteorologia em alta montanha, nunca sabemos como vai estar. Lá tivemos de recorrer ao improviso e alterar os planos. O improviso e a adaptação faz parte das aventuras e dá um certo toque à coisa.

Desta forma tivemos de aguardar que parasse de chover e recorrendo a uma mapa (à antiga) traçávamos o plano para logo que o sol desse o ar da sua graça ou a chuva se fosse embora.

E assim foi, logo que o tempo melhorou seguimos de imediato para Albertville, local onde começava a etapa 19 do Tour e assim pudéssemos assistir ao seu começo. Ainda conseguimos assistir á partida simbólica! Foi por pouco.

Depois deste momento seria ver uma nova passagem em Queige, mas ainda tínhamos tempo e por isso fomos almoçar àquela cadeia de restaurantes famosos de cozinha americana (sabem do que falamos?). Local este onde foi possível mostrar mais uma vez que gostamos de dar nas vistas, quando um dos nossos aventureiros despeja o tabuleiro dos restos e lixo juntamente com a carteira… resultado… ver foto…

Dali foi seguir para Queige, a espera foi longa, mas ao aumentar do som dos helicópteros, que significava que o pelotão estava perto, a euforia aumentava. Que frenesim é esta corrida. De facto algo do outro mundo. Só visto mesmo.

Aí veem eles, e para premiar esta passagem vemos o Rui Costa na fuga, o que nos levou a gritar automaticamente; “vai Rui! vai Rui!”

Depois de uns minutos a interiorizar o facto de termos visto a maior prova velocipédica do mundo é tempo de regressar a base que ainda falta um dia. 

Dia 4 – 23/7/2016 – Lacets de Montvernier, Col du Chaussy e Col de La Madeleine

Última dia a pedalar nos Alpes franceses, e no menu tínhamos os lindíssimos Lacets de Montvernier, seguidos do Col du Chaussy e do famoso Col de La Madeleine.

Os Lacets de Montvernier, é uma subida relativamente curta que serpenteia uma encosta ao longo de cerca de 4km, imediatamente seguidos pelos cerca de 10k do Col du Chaussy, que nos levaria a 1533 metros de altitude. 

 

O tempo fez com que esta subida fosse idílica derivado a neblina e ao nevoeiro, o que tornou a subida ao longo de pastos e aldeolas especial. 

Chegados ao topo é tempo de abastecer, beber algo quente na estalagem que se encontra no topo e fazermos a descida que nos levaria a cerca do km 4 do Col de La Madeleine, subida de 19km que nos eleva até aos 2000 metros de altura. 

Último Col conquistado e é hora de regressar ao parque, fazendo os 19km do Col a descer até La Chambre e depois seguindo até Saint Jean de Maurienne para nos prepararmos para a despedida desta aventura épica.

O início e final dos dias era sempre igual, entre banhos e lavagem de roupas as tarefas eram entre todos, em que uns iam às compras, outros preparavam as refeições e outros lavavam a loiça (sim, que nestas coisas não há cá serviço VIP. Perdia muito a piada acreditem). 

Além disso sempre que chegávamos ao parque estavam a nossa espera umas belas e frescas cervejas belgas escolhidas a preceito pelo capitão flecha.

No dia 24, foi o dia de regresso a casa, com uma magnífica viagem de comboio até Lion, onde deu para um passeio pela cidade ainda antes do regresso a casa. 

No final da jornada contabilizamos um total de cerca de 24h e 41m a pedalar, com perto de 500km percorridos e 12000 metros de subida acumulada… mas acima de tudo passamos bons momentos de entre-ajuda, companheirismo, diversão, amizade e muita coisa que ficou por contar neste longo texto porque é difícil transpor em frases e adjectivar a tamanha beleza desta região e do misticismo ciclístico que ela proporciona aos seus visitantes.

Até breve Alpes. 

Links das actividades STRAVA:

Etapa 1

Etapa 2

Etapa 3

Etapa 4

 

Texto de

@Daniel Louro e Edgar Santos