Pirenéus 2015… Mais que uma aventura.

Pirenéus, Pirineus, Pyrenees ou Pyrénées seja de que forma se escreva, uma coisa os define- Esplendorosos!

Foi em Junho de 2015 que fizemos a travessia dos Pirenéus  em bicicleta, ligando Hendaye a Colluire. Do mar cantábrico ao mediterrâneo.

Percorremos das mais belas paisagens que se podem encontrar por esta Europa fora, subimos os mais míticos Col’s, passamos por estradas, vilas e aldeias pitorescas, paisagens de um verde incrível e imenso, pequenas quedas de água a cada curva, um ar tão puro que é difícil encontrar igual. Um paraíso para um ciclodesportista, simplesmente fabuloso.

Agora descreveremos a forma como preparamos e fizemos esta viagem; as questões logísticas; as estadias; a alimentação; as ligações etc etc.

Depois de contratada a ideia do desafio que queríamos concretizar e de criada a equipa que o iria executar, encaramos o desafio com um sorriso na cara de tão fácil que ia ser …. Mentira!!!

Decidimos desde logo fazer num modelo de travessia, ou seja, (a-b-c-d-e-f-g ) e não (a-b-a) e dessa forma tivemos de nos adaptar a esse modelo e como tal necessitávamos de apoio durante cada etapa, mais que não fosse transportar os nossos bens (roupas etc) para o final de cada etapa.

Foi fácil. O mais experiente nestas aventuras, Monsieur  P.Mesquita (AKA Capitão Flecha) sendo além dum cicloturista, também um caravanista e emigrado na Bélgica, ajustando os calendários de todos, arrancou mais cedo de Genval- Bélgica para Hendaye, onde aguardou a nossa chegada vindos de Lisboa.

Depois na travessia, sendo 4, num dia pedalavam 3 e o 4º levava a caravana de A a B, com uma paragem a meio para providenciar uma refeição (almoço- Sandes etc)  . Tudo muito bem encadeado e que resultou às mil maravilhas.

Os restantes, para chegarem a Hendaye utilizaram o Sud Express (Santa Apolónia). Uma viagem em camarote de 4 camas (3 cicloturistas mais 3 bicicletas devidamente acondicionadas em caixas de papelão) que partiu por volta das 21h do dia 04 de Junho e chegou às 12h locais a Hendaye do dia 05. Uma viagem que se fez bem, sendo que grande parte do tempo íamos a dormir.

 

Chegados a Hendaye, instalamo-nos, fizemos um pequeno prólogo até Saint Jean de Luz e ainda usufruímos da piscina do parque de campismo onde pernoitamos para o dia da 1ª Etapa.

Etapa 1- 06 Junho, eis que era o dia em que começávamos a maior travessia em bicicleta que alguma vez tínhamos feito e sem dúvida o desafio mais difícil de ultrapassar, mas lá arrancamos certos e seguros de que tudo ia correr bem e fomos “comendo” alcatrão em direcção a Sudeste. O dia estava muito encoberto, com alguns chuviscos à mistura. Foi um dia em que ondulamos por pequenos montes e entre fronteiras (Espanha/França) em puro País Basco.

O ponto alto deste dia seria o col d’iraty (1340m) uma subida a 2 fases com cerca de 18 km, com uma pequena introdução aos “lacets”, sempre com neblina, tempo muito fechado mas ainda assim deu para perceber que estávamos à porta dos verdadeiros Pirenéus e então quando chegamos ao nosso destino do 1º dia, tivemos essa certeza. Terminamos em Larrau e ficamos num camping que estava de frente para uma parede gigantesca de verde, e no cimo, nas maiores escarpas era possível ver uns pontos brancos (Neve???)… passado algum tempo, esses pontos estavam noutro sítio… que raio?!!! Cabras das montanhas (Chamois)… Incrível, mas ok, toca de fazer mas é a tratar da massa porque amanhã há mais disto!!!

Etapa 2- 07 de junho, com o pequeno almoço tomado (muito speculloos) lá seguimos de Larrau para Laruns. Este já ía ser um dia mais trabalhoso com  2 col´s de respeito, Col du Soudet  e a tenebrosa parede do Col du Marie Blanque.

Lá seguimos e logo a ínicio começamos a subida para o Soudet, onde mais ou menos a meio vimos uma casinha catita que era um restaurante/ bar e nesta altura um café caía que nem gingas! Lá entramos… Uma senhora rechonchuda, Basca a todo nível acompanhada de um cão igualmente rechonchudo e com pêlo até ao fim do mundo, que nem se deu ao trabalho de se levantar parece que aguardavam por nós. Pedimos 3 cafés e 3 fatias de bolo basco. Um dos 3 adiantou-se à carteira e colocou uma nota de 10 euros “pensou… deve chegar e sobrar… nãaaa…”- A senhora rechonchuda na língua nativa disse, são €20,50 “si vous plait”….

 

Regressados à estrada/ subida e recompostos do café e bolo e descompostos da carteira depressa chegámos ao topo do Soudet junto ao cruzamento para Pierre Saint Martin e aí o sol já aparecia… toca a descer para Bedous, almocinho e siga para aquela que pensávamos ser fácil, a danada Maria Branca.

Col du Marie Blanque (por Escot) avisava uma placa, no seu início, que era uma subida de 9,5km com média de pendente de 7,6% (pensamos, ok tranquilo… fácil!!!). lá seguimos e km após km rolávamos a direito e até às vezes descíamos um pouco … mau Maria (literalmente)… então isto não empina??? Há empinou empinou e de que maneira. Para quem conhece o solitário na Serra da Arrábida, imaginem 4 seguidos na segunda metade desta subida e a juntar a isso um calor infernal! Lá se fez e a partir do topo foi sempre a esgalhar até Laruns (Vila muito simpática no sopé do Glamoroso Aubisque).

Neste dia ficamos num parque de campismo que ficava junto (mesmo junto) dum rio de rápidos que trazia água gelada das montanhas. Foi a nossa crioterapia…. Siga pôr a pernoca de molho…. Até faltava o ar de tão quentinha que estava… um senhor mais velhote que nos via fazer aquilo, tentou o mesmo e isso é que ele saltava, rápido se arrependeu. Nós não- “nós sermos duros!” . Uma coisa é certa, no dia seguinte as pernas estavam novas e não tinha sido pela bela noite de sono, já que parece que nessa noite um “urso” com uma respiração que mais parecia uma traineira a arrancar para a faina, teimou em dormir connosco, alguém não aguentou e montou uma tenda de 2seg no exterior e preferiu o fresquinho da noite e o barulho dos rápidos do rio.

Etapa 3- 08 de junho, a manhã começou cedo e tudo a trabalhar para montar mais um dia de espectáculo em cima da bicicleta. Um arranca de bicicleta à vila comprar “les baguettes” só faltava a música do genérico do verão Azul… que romantismo ciclístico… Os restantes preparavam a mesa do pequeno almoço e já se arrumavam as coisas para levantar acampamento. O dia ia ser longo, difícil mas muito bonito, talvez dos mais espectaculares que já se passaram em cima de uma bicicleta.

Km 2, início da subida para o Col d’Aubisque, a mais bonita que se tinha feito até então, que subida, que paisagem, pequenos lagos de uma azul incrível… as Vilas Eaux Bonne, Gourette, tudo isto ao longo de uma subida de 18km até uma altitude de 1710m. Uma subida completamente pornográfica, numa conjugação perfeita.  A entrada nos Altos Pirenéus. Indescritível.

Depois do Aubisque, descíamos um pouco e voltávamos a subir uns poucos  4km para o Col du Soulor. Deste ponto foi sempre a descer até Argèles Gazost, uma vila com uma forte presença ciclista ligada ao Tour. À saída desta vila almoçamos junto a uma ponte romana e seguimos em direcção ao ultimo col do dia o mítico Luz Ardiden.

Passando pelo local que nos iria acolher durante 2 dias, Luz Saint Sauver, viramos à direita para subir e voltar a descer pelo mesmo sitio (só tem mesmo uma forma de se subir) o Luz Ardiden que foi feito no seu final, com chuva e com a descida um pouco mais perigosa.

 

Check-in no camping, jantar, caminhada pela vila e cama porque o dia seguinte era a Etapa Rainha, com o Hautacam e Tourmalet  como pratos do dia no menu.

Etapa 4- 09 de Junho, um dia bom, com sol bem à vista. Seguimos confiantes em direcção ao Hautacam que iria aparecer ao km 18, uma subida que apenas tem uma vertente e ao longo da mesma sente-se um ambiente “Tour” , uma subida com muito história no ciclismo. Ultrapassado este desafio lá seguimos num trajecto circular parando na cidade das aparições Marianas- Lourdes. Local onde neste dia almoçávamos à mesa e com o grupo completo já que a volta acabava no mesmo sítio. No restaurante vincou-se a ideia de que somos mais que as mães e estamos em todo o lado. O senhor que nos serviu era natural de Águeda (terra de bicicletas), é sempre reconfortante, gostamos mais de nós (uns dos outros) lá fora, não sei porquê.

De papo relativamente cheio, seguimos para o gigante dos altos Pirenéus, o famoso, imponente e histórico Col du Tourmalet. A vertente desta subida de 17,5km até uma altitude de 2110m, foi de Sainte Marie de Campan, e a dos 5km de subida, é muito constante em pendentes entre os 8 e 10%. Apanhamos grande parte da subida com o pavimento em reparação porque o Tour iria ali passar 1 mês depois e tudo num momento de neblina intensa que encharcava por completo as roupas.

A cerca de 5km do final, na estância de la Mongie, parámos num bar que parecia tirado daqueles filmes do faroeste, até as portas eram dos mesmo género e os clientes a olharem para nós como forasteiros. A única diferença é que não pedimos whisky, mas sim uma coca cola e uma fatia de cheesecake com mirtilos (10 euros) que soube pela vida.

Siga rumo ao topo, foto da praxe na passagem no alto e descida vertiginosa, desta feita com o sol espectacular até Luz Saint Sauveur, para finalizar mais um dia em terras dos altos pirenéus.

Etapa 5- 10 de Junho, dia do nosso GRANDE PORTUGAL, e dia de etapa anulada devido a chuva e fez com que ficassem por fazer as subidas do tourmalet via Luz Saint Sauver, Aspin e Peyresourde (motivo para lá voltar). Desta forma lá fomos seguindo de caravana pelo trajecto em direcção àquele que seria o final da etapa, Saint Béat.

Chegados a Saint Béat e instalados, o dia melhorou e lá fomos numa voltinha de recuperação até Bagneres de Luchon, vila também muito ligada pela história ao ciclismo. Sentamo-nos num café e fizemos o nosso pedido e a dada altura voltamos a perceber que somos mais que as mães, o dono do café é Português e foi ciclista… iscas canudo… Espetacular,  mais um dia concluído.

Etapa 6- 11 de Junho, dia que enfrentávamos, o Col de Menté, Portet d’Aspet, Col de la Core e col de Latrappe.

Col de Menté, subida muito simpática com uns “lacets” que espevitavam o ritmo e dali ao Portet d’Aspet foi um “tiro” e aí pôde-se assistir ao local e ao monumento em honra do malogrado Fabio Cassartelli, numa curva que foi fatal para ele no tour de 1995 quando decorria a etapa 15 daquela edição.

Terminado o dia, altura em que já se fazia sentir alguma fadiga seguíamos para o penúltimo dia com o Col de Agnes e Col de Paillères na ementa.

Etapa 7- 12 de Junho, uma etapa desgastante e com alguns pequenos contratempos, o dia seguia bem, subindo o Col d’ Agnes e Port de Lers. Subidas muito bonitas, graduais e com boa meteorologia, céu coberto mas pouco vento e boa temperatura. À tarde depois do almoço entravamos em Ax-les-thermes para iniciar a subida ao Col de Paillères, que se revelou muito difícil com chuva, vento e frio que surgiram quase do nada. A descida foi feita complemente encharcados, sobre chuva torrencial e com o físico já um pouco desgastado. Chegados ao parque esperava-nos a caravana à porta só para nos confirmar que aquele parque estava abandonado…. Completamente encharcados e com recursos a mapas (à moda antiga)  e a roteiros de campismo lá viemos a descobrir um parque de 5 estrelas e com jacuzzi…

    

Mas no caminho antes de chegar ainda fomos mandados parar pela “Douane” polícia fronteiriça, que acho que tiveram pena da nossa cara de cães abandonados e desgastados..

Etapa 8, dia 13, último dia em que seguíamos em direcção a Collioure, vila costeira, mediterrânica muito linda…

E assim terminávamos uma aventura que em números representou, 855km, 18,500m de desnível acumulado de subidas, muitas terreolas, col´s, vilas e paisagens na bagagem… Com toda a certeza que um regresso acontecerá mas não em travessia e sim nos mesmos moldes que nos Alpes em 2016.

Logisticamente foi relativamente fácil de concretizar, monetariamente e visto que cozinhávamos o que comíamos, ficávamos em parques de campismo e deslocávamo-nos de bicicleta J a aventura ficou mais barata do que possam imaginar, troquem as inscrições de 8 a 10 grandfondos em Portugal e encontram +/- o valor gasto na aventura.

O regresso foi feito na caravana, numa tirada de mais de 14h, com turnos e só paramos em Vendas Novas para a bifana e sopa de feijão que melhor me soube em toda a vida.

Trouxe comigo nos bolsos dos jerseys, recordações, subidas (algo que adoro), vistas, sensações e uma cansaço tão bom que me fez perceber a liberdade que nos dá uma bicicleta, seja de ferro, alumínio ou carbono…

LINKS das actividades no STRAVA

Etapa 1 (https://www.strava.com/activities/319777961 )

Etapa 2 (https://www.strava.com/activities/320605996 )

Etapa 3 (https://www.strava.com/activities/321114230 )

Etapa 4 (https://www.strava.com/activities/321806329 )

Etapa 5 (https://www.strava.com/activities/323432122)

Etapa 6 (https://www.strava.com/activities/323432351 )

Etapa 7 (https://www.strava.com/activities/324074932 )

Etapa 8 (https://www.strava.com/activities/326275509 )

Até à próxima…

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